"O site YouTube guarda preciosidades culturais entre seu acervo de milhões de vídeos. O Segundo Caderno de O Globo selecionou 25 vídeos com personalidades como Carmen Miranda, Maria Bethania, Roberto Carlos, Helio Oitica e Nelson Rodrigues, entre outros (...) acessíveis graças à generosidade dos fãs"
Há um ano, no entando, eu já havia feito matéria semelhante aqui no blog. Será que a turminha do GLOBO anda pautando o tradicional periódico pelo Around Venus?
Hum.
E na lista dos melhores vídeos culturais, a entrevista com Nelson Rodrigues; uma raridade que *EU* disponibilizei no YouTube.
Around Venus: não servimos bem, mas bem que servimos!
* * * * Sublinho que a matéria do Globo só foi possível graças à generosidade dos colaboradores do YouTube e/ou usuários engajados da internet. A web é nossa.
17.7.08
ROQUENRROU PRO SEU MOLEQUE
Companheira de passeio nos finais de semana e boa de copo: açaí com morango, dos bem cremosos feito sorvete. Apliquei-a na bebida. Teima, contudo, no "enroladinho de queijo com presunto" (ou "Italiano" - "joelho", como os "da gema" conhecem). Conta oito anos de idade. Uma moça, mas que ainda pede colo.
Filha? Nada. É de outrem. De minha irmã, o que me torna automaticamente seu tio. E ela, sobrinha querida. Aplicou-me Vanessa Hudgens e Lizzie McGuire (Hillary Duff). Mas o estrago não ficou barato para ela: pus-lhe o rock n'ouvido, de modo que a pequena viciou-se em esquisitices que vão de Stray Cats a Titães antigo, mais especificamente "Babi Índio". Tem algumas dúzias de bonecas, mas anda DESTRUINDO no guitar hero, fazendo o tio passar vergonha - logo eu, que REGAÇAVA no Street Fighter de rodoviária.
O segredo? Muito Beatles para crianças quando inda era um bolo de carne desprovido de consciência, esparramado no berço. Mas é aquele papo, você já deve tá dizendo aí com a boca cheia de Passatempo recheado: "Beatles é coisa do meu avô!".
Acha que descolado de verdade é presentear a criança com bonequinha da Amy Winehouse, né, parceiro? Tá de bobeira! VANGUARDA mermo é a coleção "Rockabye Baby! Lullaby Renditions". São 19 discos trazendo versões "de ninar" dos seus grupos de rock prediletos. Vai de Beach Boys a The Cure. Antes que a futura mãe freqüentadora da Casa da Matriz reclame: sim, tem os enjoados Radiohead também. E Björk, Nirvana, Green Day, Metallica, Bob Marley...
O projeto é do CMH Label Group, clássica gravadora independente americana especializada em bluegrass. Sem muitas pretensões, foi criado como opção para um mercado de recém-nascidos abarrotado de clichês. São disquinhos com capas parodiando as dos discos originais. O projeto não tardou a cair nas graças da molecada, principalmente nas dos pais. A linda Katie Hudson, que interpretou a groupie Penny Lane no filme "Quase Famosos", é fã declarada da coleção. Foi por intermédio de uma entrevista com ela que, por acaso, descobri a pérola - e repasso a vocês três.
Claro que não há qualquer previsão de a coleção chegar aqui na terra da banana nanica.
Mas nada que dois cliques no google não resolva.
* * * * Eu já tenho a minha coleção. Negativo. Por enquanto não estou planejando fazer um filho. Bom, tem aquele lance: se a Katie Hudson quiser, vem que tem. Faço um boneco na hora na moça. Meto-lhe dois, um casal de latinamericanos com fome logo.
* * * * A Lia se escangalhou com a crônica da Piauí sobre o lançamento do disco do Roberto Justus. Mas eu rachei o bico pra dedéu foi com o manual de boas maneiras publicado este mês. Há pérolas da grã-finagem brasileira como: Pergunta: Enquanto os convivas estavam distraídos, vomitei no chão. Ninguém percebeu, mas o garçom se aproxima. Como disfarçar o ocorrido? Resposta: O mais apropriado é derramar o resto do vinho sobre o líquido expelido, misturar tudo como pé e discretamente chamar a atenção do serviçal: "Esse vinho que você me serviu parece vômito!"
* * * * Falando na Lia, vai um presente para ela (que anda fazendo essas coisas bacanas) e para você que tem saudades das bonequinhas de papel de antanho: paper doll da Amy winehouse!
* * * * Ah. Ouçam "Frank", da Amy. Primeiro disco da moça, anterior ao "Back to Black". Lindo.
* * * * Demorei, mas "descobri" The Office. De doer o maxilar!
30.6.08
1985, CARNAVAL DA PESADA
E da passarela do samba você ouviu Simple Minds e a faixa "The Kick Inside Of Me"; depois U2 e a faixa "With a Shout", do LP "October"; e depois Pils, "Solitaire", com Johnny Rotten na sua nova fase querendo ser cantor, querendo ficar famoso, querendo ganhar dinheiro!
Bom, vamos continuar então com mais samba pra vocês, mais coisas pra vocês sambarem nesse carnaval delicioso, nesse dia chuvoso. Tomara que chova todos os dias, faça frio e que não aconteça absolutamente NADA nessa cidade HORROROSA. Vamos continuar com o revival de punk rock. Agora com Rezillos, Eddie & The Hot Rods, 999 e Ramones.
O trecho é do programa New Beat, apresentado pelo desbravador Kid Vinil, na rádio Excelsior, em 1985. Mais precisamente no dia 18 de fevereiro daquele ano. Exatemente no carnaval, durante a folia de momo. Vinil está especialmente áspero, praguejando sem dó contra os foliões.
Os três que freqüentam o Around, contando comigo, sabem que adoro rock.
Mas não só.
Contrariando os revoltados que vestem negro e usam pregos na cara, gosto muito também de samba e das suas histórias.
Gosto tanto que tenho um jornal especializado no assunto, como vocês já tomaram conhecimento.
Mas vou ser obrigado a fechar com Kid Vinil.
ODEIO o oba-oba do carnaval.
Os programas do Kid eram *A* referência nos anos 1980, e os seus speeches eram atração à parte. Não faz muito tempo o próprio Kid Vinil começou a disponibilizar os programas na íntegra em seu blog, em versão MP3, acompanhados de setlist em txt. Tudo no capricho.
Para baixar o programa do carnaval de 1985, siga o link.
* * * * Quer uma dica de programa de TV bacana? Então chega lá que te conto.
17.6.08
O GAROTO MATEMÁTICA
TV a cabo? chegou aqui no agreste há poucos anos, de você contar nos dedos da mão esquerda do Lula.
Fico com a abetra. E tenho um aparelho Philips na sala.
Não queiram conversar comigo, moças criadas correndo, cabelos derretidos feito calda de caramelo ao vento, soltas pelos átrios do Santo Inácio, Franco Brasileiro, Americano da Gávea e até o São Bento (note o verso picareta pra forçar a erudição). Meu papo é ruim que só. É analógio, de cores borradas e de pouca definição. Papo com bombril na ponta, pra não sair do ar. Saltei da van na TVA de 15 canais, pacote básico, box convencional forrado com paninho de crochê.
Mas se você insistir em perder seu tempo, vai logo descobrir que sou daqueles que assiste ao "Tudo é Possível", programa cura-ressaca apresentado aos domingos pela boneca Eliana, na Record. E se me oferecer um café, vai ter a infelicidade dupla de me ouvir falar, com entusiasmo, do quadro "Ciência em Show".
Trevas pouco?
Você é masoquista, tem um mau gosto pra homem que só chinelada de havaianas na cara pra curar, e resolve me chamar pra tomar um sorvete. Yogoberry, como sugere a Lia.
Moça criada à creme de kiwi com champanhota, tu iria ter de agüentar a me ouvir falar impressionado, com a carótida latejando, sobre o pequeno Matheus. O convidado recorrente do "Tudo é Possível" com quem ando bolado é um moleque de oito anos de idade, gênio, professor de matemática.
E se ainda assim você continuasse com os olhos de swarovski fixados em mim, o sorriso leve no cantinho da boca, eu largava tudo e fugia contigo pra Maricá - porque pra Búzios não tenho dinheiro.
* * * E falando em trevas, eita paizinho da piada pronta. E nego ainda vem reclamar que Charles De Gaulle disse que o Brasil não era um país sério.
* * * Ah, eu não poderia deixar passar de forma alguma: viva Eike Batista!
11.6.08
PESSOA PARA SEXTA 13
Uma mandinga para ficar longe do azar na próxima sexta-feira 13?
Fernando Pessoa!
A data marca o dia de nascimento do poeta que, se vivo estivesse, completaria 120 anos. O prato feito - com direito a ovo frito e macarrão com feijão por cima - é o especial que o canal Globo News está apresentando sobre o poeta português preferido da sua garota.
O jornalista Claufe Rodrigues foi a Portugal e refez os caminhos trilhados por Pessoa, colhendo depoimentos importantes sobre o poeta. Ultramar, conversou com a escritora Manuela Nogueira, sobrinha de Pessoa, e o filho do barbeiro Manassés (responsável pelo trato no seu famoso bigodinho) - as duas únicas pessoas vivas que conviveram com o poeta. De volta à colônia, transformou as andanças pelo antigo império em uma série de três programas, que começou a ser exibida no dia 1/6 no canal Globo News.
Primeira parte
Dividido em três partes, o especial pode ser assistido na íntegra aqui. O último capítulo será exibido no próximo domingo, às 23h. Chega à internet em seguida.
A Biblioteca da USP disponibiliza as obras para leitura em seu site.
* * * * E já que estamos falando de poetas, corre lá pra baixar a Antologia Poética de Vinícius de Moraes. Aproveita que está em tempo de aplicar o caô naquele bagacin com olhos de ressaca que você anda comendo com seus olhos de vidro. É Vinícius narrando os próprios puemas, feito esse aqui.
Porque não é sempre que se tem a oportunidade de entrevistar o maior sambista vivo do Brasil. Tampouco ser recebido na intimidade de sua casa e passar a tarde, sem pressa, batendo um papo agradável. Mais raro ainda é ser levado pelo próprio Paulinho da Viola até o portão, findo o papo, e ouvir da boca do mestre um "muito obrigado".
Vale mais do que salário, rapaz.
18.3.08
DRUMMOND
"Eu nasci quando o Dr. Freud estava lançando a psicanálise."
"A poesia, por si mesma, é uma explicação do mundo. Agora, a explicação da poesia fica por conta do leitor e da sensibilidade dele."
"Não é propriamente o julgamento literário, a meu ver, que influi em poesia. É uma certa capacidade de comunicação que o poeta consegue - ou não, porque nem sempre ele consegue - que faz com que uma pessoa desconhecida, que mora no Piauí, escreva para a gente uma carta e diga: 'Olha, eu li um poema seu. Estava angustiada, estava desesperada. Seu poema é doloroso, é angustioso, mas ele me fez bem.'"
"Era um mundo diferente (...), a gente tinha medo de engolir a hóstia na hora da comunhão e mastigar porque aquilo era pecado gravíssimo. Todas essas coisas enchem a cabeça da gente de porcarias. Então a minha poesia, no fundo, foi um processo de depuração interna. Eu vomitei tudo isso na minha poesia.
"Essa precariedade, essa falta de continuidade do sentimento humano é o maior entrave ao amor."
"Eu sou bastante telefoneiro. Não sei se existe essa palavra."
"EM geral eu escrevo em casa, à noite ou de manhã. Eu gosto muito de meu escritório, dos meus papéis, dos meus arquivos. Eu tenho um papelório grande, grande que me acompanha pela vida toda."
Palavras sábias de Carlos Drummond de Andrade pinçadas do "Arquivo N", da Globo News, especial sobre o poeta de Itabira, exibido em agosto do ano passado.
No embalo, sugiro a leitura de "Cordialmente, Carlos", publicado pela Piauí deste mês. Belo relato sobre a troca de correspondências entre Helena Maria Vicari e Drummond, mantida por 25 anos ininterruptos. Dona Helena, 68 anos vividos na pequena Guaporé, cidade escondida na serra Gaúcha, jamais conheceu pessoalmente o poeta mineiro radicado no Rio. Importante dizer.
NOTA: caso o vídeo não rode ("this video is no longer available"), CLIQUE AQUI para assisti-lo. É que há uma certa incompatibilidade com o Firefox neste vídeo. Sugiro - extraordinariamente desta feita -, o uso do IE.
25.2.08
MELANCOLIA
Eu queria o reverso, a realidade inversa. O bonito verso secreto do rebolado incerto.
Descendente de chinês eu já sou. Bisavô, tataravô... Não sei exatamente. Certo de que é longe. De chinês, acho que tenho só o cabelo liso mermo. Os olhos já foram mais puxados quando menino. Agora tão debaixo de vaia. De qualquer modo, o moleque do vídeo é japonês. Tou todo errado mermo.
Mas quero ter um filho assim:
Veja até o final, por favor
E um Playstation boladão, uma pseudo Fender do Hendrix, uma palhetada frenética, muita afetação à Steve Vai...
Não tenho nada contra o comunismo, mas estou velho e mal acostumado para mudar a minha vida. Esse negócio de acordar às sete da manhã e trabalhar até de noite não é para mim, é para a garotada. Meu carro está desmanchando de velho, come metade do que eu ganho. Mas se me der vontade de brecar aqui, mandar todo mundo descer, ir para casa e ficar uma semana sem fazer nada, ninguém pode me impedir. Comunismo é bom para essa juventude que está aí nas ruas. Quem passou a vida inteira por conta própria não se acostuma.
Quem diz isso é Francisco Herrera, cubano que leva a vida atrás do volante de um Dodge 1953 como taxista pelas ruas de Havana. O camarada deve estar dando cavalos de pau na Avenida Malecón. Sábio.
Trecho extraído do livro A Ilha, de Fernando Morais (e publicado aqui no Around em 2006, antes do piripaque de Fidel).
* * * * Lembrando: hoje é a festa de lançamento da segunda edição do jornal O Samba é meu dom, além de aniversário de 1 ano do blog. Portanto, todos no Bar da Ladeira (Rua Evaristo da Veiga, 149, Lapa- Rio) a partir das 20h para fazer uma bagunça legal! Vai ter roda de samba com Wilson Moreira e o grupo Samba da Amendoeira, além de outras surpresas de última hora. Maiores detalhes sobre a festa é só seguir o link.
3.2.08
DE ALELUIA A SARAVÁ
"Do alto do trio-elétrico, Daniel Pereira, chapéu panamá tortinho na cabeça, puxava com voz grave o bloco “Imprensa que eu Gamo”. Fosse um jardim, lá embaixo seriam rosas cobertas de orvalho. Eram cabrochas à chuva, no entanto, que enfeitavam as ruas das Laranjeiras, no Rio. Braços lançados ao céu, levavam no gogó: “Minha cidade ainda é maravilhosa / Tá cheia de avião / Relaxa e goza”, refrão de “Na tropa do imprensa, ninguém pede para sair”. Vencedor deste ano, o samba de Daniel Pereira era chiclete na boca dos foliões.
Três dias antes, no café do Cinema Odeon, Daniel confidenciou..."
Já está circulando, gratuitamente, o novo jornal "O samba é meu dom", fruto do blog O Samba.net. A publicação pode ser encontrada em diversos pontos espalhados pelo Rio de Janeiro, Niterói e em alguns outros fora do estado.
São cinco mil exemplares, com oito páginas coloridas, tratando da cultura do samba de forma livre e independente, seguindo a linha editorial do site, reconhecida pelos nossos leitores. Portanto você já pode pegar o seu exemplar e desfrutar, no papel, o que até então só havia na net. E o melhor de tudo: sem nenhum custo!
E para comemorar o nascimento desse novo jornal, convidamos você para a festa que acontecerá no próximo dia 18, terça-feira, no Bar da Ladeira, na Lapa, a partir das 20h. No palco, farão subir a poeira bambas consagrados como os grandes Walter Alfaiate, Zé Katimba e Zorba Devagar, além de outras surpresas.
É nóis! * * * * Alguns pontos no Rio e em Nitetói onde você pode pegar seu exemplar:
RIO DE JANEIRO
Modern Sound (Copacabana) Baratos da Ribeiro Sebo (Copacabana) La Cucaracha - Bazar e Galeria (Ipanema) Bar Jobi (Leblon) Cinemas do Grupo Estação Cinemas Unibanco Arteplex Cavídeo (Cobal do Humaitá) Da Cobal Café (Cobal do Humaitá) Coisas do Interior (Botafogo) Café Lamas (Flamengo) Bancas de jornal: -Rua Senador Correia, 66, esquina com Paissandu (Flamengo) -Esquina das ruas Senador Vergueiro e Desembargador Sadi Gusmão (Flamengo) Brasil Mestiço (Lapa) Café Cultural Sacrilégio (Lapa) Trapiche Gamboa (Gamboa) Sebo Berinjela (Centro) Paço Imperial (Centro) Livraria e Edições Folha Seca - Rua do Ouvidor 37 (Centro) Loja Panamericana Material de Construção - Estr. Rio Jequiá, 1674 - Zumbi (Ilha do Governador) Restaurante Estação (shopping Downtown, pça alimentação, Barra da Tijuca)
NITERÓI
Cine Arte UFF (Icaraí) Bar Mãe D'água (São Domingos) Coisas da Antiga (Itaipú) Locadora Videoteka (Santa Rosa) Tape Vídeo (Fonseca)
11.12.07
NÃO PAREM AS MÁQUINAS!
As últimas semanas foram de corrida intensa. Pra fechar de vez o jornal, Só faltava definir o logo e fazer um anúncio institucional. Venho trabalhando no logo desde a semana passada, direto. Como decidimos tudo junto em espécie de conselho editorial, democraticamente, tive de fazer vários acertos até que todos estivessem de acordo.
É melhor assim.
Ontem, a UMA E QUARENTA DA MANHÃ, foi batido o martelo. Nenhuma objeção, todos de acordo: o logo pôde, enfim, ser aplicado ao topo do jornal. Ficou bonito, rapaz.
Hoje cedo levamos tudo pra gráfica. O jornal deve seguir pras rotativas ainda hoje. Se não, amanhã à tarde.
Sai do forno até quinta de manhã.
Formato tablóide, com oito páginas nesta primeira edição. Todas coloridas!
Há ainda uma tirinha feita especialmente para o jornal, criada pelo cartunista Floriano Carvalho.
"O Samba é meu dom" começa a circular a partir desta quinta-feira.
GRATUITAMENTE!
Breve coloco aqui os pontos de distribuição. Da zona sul à zona norte.
"O Samba" é a evolução natural do site OSAMBA.NET, que desde fevereiro coloco no ar junto com as feras Bruno Villas Bôas, Thales Ramos e Thiago Dias.
7.12.07
SOBRE NADA
O que pega é que não tenho ajuda de ninguém. Do velho, então, nem um tapinha nas costas. Mas a vida é boa, e reclamar não leva a nada. Sigo o horizonte, caçando o sol como Quixote os moinhos de vento. A cada poente, girando atrás da bola de fogo, vou tentando aprisioná-lo nas mãos em concha. Chegará o dia em que, heróico, encerrarei a luz numa gaiola. E, egoísta, usarei-a como lanterna. Os caminhos jamais serão sombrios. Deitarei luz divina a escorrer dourada pelos campos floridos por onde passarei. À luz!
14.11.07
CAUSEI
"Você é supâr simpático. Adorei. Só por isso vai entrar como lista."
O nome não lembro. Era hostess de um club de SP. Pros amigos, fez um carão e cobrou uma nota de entrada. Pra mim, derramou-se em elogios num sotaque bacana e, do nada, colocou-me na lista VIP.
Jamais tinha pisado na casa.
Entrei com o ego batendo no teto, não é sempre que se é elogiado na porta de uma boate, ainda mais em SP.
Eu vestia calça jeans ordinária de R$ 40 reais, camiseta branca com uma estampa do Cribs, All Star preto, dos simples.
Tinha nada demais a roupa, como notado.
Mas a pequena, sorvendo um líquido colorido enquanto tomava nota do meu nome na entrada, súbito, perdeu o ar rígido que vinha mantendo com os frequentadores.
Riu-se toda. E fez-me o agrado.
Pensei na seguinte questão:
Por que raios a pequena que trabalha de door na Pista 3, no Rio, é tão amargurada e antipática?
Será possível que é culpa dos freqüentadores?
Não creio.
Léo Feijó alguém?
* * * * *
Momento mea culpa
Ando sumido, de fato. Tanto daqui quanto do Lound. Não queira pôr um jornal novo na praça dum mês pro outro, meu chapa. Não queira mermo. Uma correria ingrata que um dia te explico. De todo modo, dezembro ele sai das rotativas e, quem sabe, sorteio uns exemplares aqui no Around. ;)
Se bem que vocês três andam muito calados ultimamente.
É a hora em que o sino toca, mas aqui não há sinos; há somente buzinas, sirenes roucas, apitos aflitos, pungentes, trágicos, uivando escuro segredo; desta hora tenho medo
É a hora em que o pássaro volta, mas de há muito não há pássaros; só multidões compactas escorrendo exaustas como espesso óleo que impregna o lajedo; desta hora tenho medo.
É a hora do descanso, mas o descanso vem tarde, o corpo não pede sono, depois de tanto rodar; pede paz - morte - mergulho no poço mais ermo e quedo; desta hora tenho medo.
Hora de delicadeza, gasalho, sombra, silêncio. Haverá disso no mundo? É antes a hora dos corvos, bicando em mim, meu passado, meu futuro, meu degredo; desta hora, sim, tenho medo.
O poema está no livro A Rosa do Povo (José Olympio, 1945), escrito por Drummond durante a Segunda Guerra Mundial, o que faz dele um dos livros mais pessimistas do poeta. Lindo.
José Miguel Wisnik, grande compositor e professor de Teoria Literária da USP, musicou o poema e o incluiu no seu disco "Pérolas aos Poucos", de 2003. Aqui você pode conferir o resultado.
Around recomenda também a leitura do artigo de Liliana Harb Bollos.
18.10.07
DEU SAMBA
Os militares podiam mandar no Brasil durante os anos de chumbo, mas na TV quem ditava as regras era Flávio Cavalcanti, um apresentador franzino porém de porte napoleônico. Falo das décadas de 1960/70, quando a TV Tupi era a maior rede brasileira e Silvio Santos não passava de um empregado de Roberto Marinho.
Foi Flávio Cavalcanti quem criou o modelo de programa de auditório que conhecemos hoje, incluindo a bancada de jurados composta por personagens caricatos e antagônicos. Antes da existência do Fantástico, era ele quem pautava as conversas da família brasileira. O aparesentador gozava de um prestígio imenso.
"Isso deu samba" era um dos quadros do seu programa. Flávio levava ao palco um popular cuja tarefa se resumia a contar uma história pessoal. Inspirados na desventura do participante, dois compositores consagrados deveriam fazer um samba em poucos minutos. Ao final da composição, um intérprete o cantaria ali mesmo, ao vivo, e o júri escolheria a melhor canção.
Um senhor de cara engraça e voz idem conta sua história: "Seu Flávio, meu nome é Alcides, mas meu apelido é 'Quindim de mulher'. Eu não sei por que toda mulher que olha pra mim se liga e gama. É loura, morena, é furta-cor... todas!"
Na disputa, os inacreditáveis Adelino Moreira e Lupicinio rodrigues.
Flávio dá uma ordem. A competição começa. Adelino põe-se a cantar num tom claudicante: "Não sei o que eu tenho / Não sei o que eu faço/ O meu 'esquindim' só meu causa embaraço / Mulher que me olha quer me dar o nó / Gama logo por mim e me chama xodó". Emílio Santiago, logo atrás, galante como um astro Blaxploitation, observa atento. A cantora Cláudia Regina dá continuidade.
No júri, a jornalista Marisa Raja, de cabelos curtíssimos como Elis Regina, entre a névoa branca que escapa do cigarro do maestro Erlon Chaves, demonstra real interesse. Maysa, séria, de sobrancelhas finíssimas quase inexistentes, parece entediada. Fernando Lobo rói a unha e, súbito, quebra a munheca.
Entra Lupicínio Rodrigues, casaquinho de lã e óculos de armação preta como os de Jânio Quadros. Chega de mansinho, fazendo sinal para diminuir o andamento da música. Não adianta. No primeiro verso, perde o fio da meada. Pára, retoma o fôlego e recomeça:
"Meu nome é Alcides / Mas todos me chamam Quindim de mulher / Não sei o que tenho que moça e velha / Loira e morena e mulata me quer".
Emílio Santiago, exibindo um sorriso tão alvo quanto a camisa que veste, aguarda sua vez de entrar. É ele quem defende a música feita por Lupicínio minutos antes. Abraçando o compositor, chega soltando o gogó: "De paixão por mim / duas já foram parar no hospício / outras fizeram até sacrifício / de ir pra a cadeia e pro cemitério".
O radialista Humberto Reis dá um trago profundo no cigarro, o resto do júri se encanta com a música e a platéia não se contém. Aplausos entusiasmados. Maysa, olhos semicerrados, um vidro inteiro de cajal na borda das pálpebras, observa séria com o cigarro ardendo entre as falanges. Fumar, como se nota, era elegante. Emílio continua, cheio de ginga, a sua interpretação do samba instantâneo. A câmera flagra Maysa esboçando um sorriso rápido, a diva parece ter se rendido à composição de Lupicínio. Mais aplausos.
Fim da apresentação. Flávio Cavalcanti se antecipa: "Assim nasceram dois grandes sambas hoje", e joga em seguida a decisão para os jurados.
Nós aqui do WeShow nos dedicamos diariamente a buscar na internet os melhores e mais interessantes vídeos do mundo, em mais de 200 assuntos diferentes. O seu vídeo Nelson Rodrigues - Otto Lara Resende foi selecionado dentre milhares como TOP 10 outubro em Artes > Literatura & Pensamento e está concorrendo a MELHOR VÍDEO deste canal.